José Carlos Madeira - se elegeres a sinceridade como teu propósito de vida, manterás sempre livre a tua opinião e a tua mente liberta em cada palavra!

30
Set 14

 

Escrito ao domingo…

 

 

 

 

 

 

“ E depois do Adeus…que nos valha António - o Santo”

 

Na política a dignidade é o que é! Dependente do momento, das circunstâncias e de quem apregoa! Hoje terminou a extensíssima e nefasta batalha das primárias para a eleição do candidato a primeiro-ministro, com a vitória de António - o Costa. O tal, dos dois Antónios, que foi apregoado como traidor, desleal, o homem subjugado aos interesses financeiros e á promiscuidade dos negócios com a política. Ao escutar este chorrilho de acusações fortes a maioria dos portugueses que já assumiu a maioridade democrática olharia de soslaio para tão vil personagem e de certeza que não se deixaria embrenhar, nem iludir depois de em intensos dois meses o seu adversário, o António - o Seguro, ter ininterruptamente alertado em voz alta aos quatro ventos para os perigos da indignidade do outro. No entanto, hoje (domingo) uma parte dos portugueses, numa manifestação ímpar na nossa democracia acorreu às urnas e disseram que preferiam o traidor, o desleal, o político das negociatas, o amigo dos amigos de empresas dúbias! Dito da forma acima, parece uma tragédia e que a maioria de uma nação ainda está mergulhada no obscurantismo e na ignorância mas é exactamente o seu contrário! A grande e surpreendente participação de militantes e simpatizantes socialistas nestas primeiras primárias em Portugal de um dos grandes partidos sistémicos demonstrou a maturidade de um democracia e a fórmula correcta para levar os portugueses a intervirem cada vez mais na vida politica e a decidirem desde a base quem desejam para comandar os seus desígnios e não confrontados irremediavelmente com escolhas internas e resultante da correlação sempre duvidosa ente as facções partidárias.

 

Além da participação do nível de participação é de realçar sobretudo o entusiasmo e o espirito de missão que era visível nos participantes nas filas de espera, nos grupos de amigos que discutiam perto das assembleias, nos cafés e em outros locais. Apesar dos meus pacos nove anos de idade aquando das primeiras eleições livres em Portugal, recordo-me desse momento e essencialmente do entusiasmo, até uma expressiva alegria vivida que via em familiares, amigos e vizinhos. Ontem recordei esse tempo e até com alguma emoção, porque não descurem os trocistas que é um momento novo e de viragem na vida dos portugueses e que no futuro nada será como conheceram até aqui ao nível politico. Ouve um recado sublimar de uma nação á classe política: se permitirem participar nas decisões do sistema politico no seu todo, se não tiverem medo que os resultados ponham em causa os interesses de grupos e grupelhos, os portugueses dizem um sim em massa á sua participação e não se coíbem em decidir.

 

Mas para além do nível de participação ter proporcionado um momento histórico, tenho a certeza que virá a constar nos manuais de história como o “consolidamento” da democracia num tempo de crise generalizada mas o seu resultado também não é de menor importância, como sub-repticiamente os vencidos tentam secundarizar, perante o autêntico soco no estômago que receberam. O resultado e a  diferença final entre os candidatos, recebendo o vencedor cerca de 70% dos votos, não deixam margem de dúvidas quanto à opinião e ao desejo dos votantes em relação aos dois opositores! Daqui se deve tirar conclusões, não só dentro do Partido Socialista ou em especial da facção perdedora que apostou na fórmula do populismo desbragado, apimentado com o ataque pessoal e da vitimização choramingas! Talvez inconscientemente foram induzidos num erro primário de análise do resultado das últimas eleições Europeias que despoletaram esta contenda; tomaram como assertiva e de resultado fácil a estratégia de Marinho e Pinto, que utilizando um partido existente e inaugurando o sistema de barriga-aluguer politico, retirou muitos votos ao PS liderado por António, o Seguro, com um populismo demagogo e até caduco. Os conselheiros do secretário-geral do Partido Socialista, não conseguiram discernir que os votos que perderam então para Marinho Pinto, não foram consequência de alguma estratégia pensada e coordenada, pelo caracter do personagem e muito menos por um eventual programa político. A eleição de Marinho e Pinto e por arrasto mais um compincha desconhecido do partido-barriga-de-aluguer, obtendo a inimaginável percentagem de 7.7%, foi só e apenas o resultado de um voto maciço de protesto de um eleitorado de centro-esquerda que além de descontente com a maioria de centro-direita da governação, não se revia e não acreditava numa alternativa protagonizada por António José Seguro que nunca foi capaz de galvanizar e entusiasmar para além do seu restrito grupo de indefectíveis! Em vez de assumirem este facto e reconhecerem os pacos resultados, insistiram numa estratégia ao estilo de D. Quixote alienados da realidade, tentando que todos vislumbrássemos “moinhos de vitórias épicas” onde apenas existiu uma pifíssima vitória! O mais impressionante é que para além de não perceberem que não eram escutados pela esmagadora maioria, continuaram em altos gritos a apregoar por uma vitória épica não percebendo que o que escutavam de retorno era apenas e só o eco das suas vozes e o que vislumbravam era uma miragem do que apenas desejavam. Na vida política quase sempre um desejo não é mais que um moinho de vento, que roda, roda mas se o moleiro não tem bom ou sequer algum trigo, nenhuma boa farinha fará, apenas se limitando a rodar e a libertar um silvo ao vento… Não entenderam que neste momento politico em Portugal, a maioria não estava interessada se António - o Costa, era tido como traidor, desleal ou quem era o Godinho de Matos, o homem das negociatas, que de repente viu-se na ribalta e nas paragonas sem perceber porquê! O que a esmagadora maioria dos seus militantes e simpatizantes era uma alternativa diferente de Passos Coelho e da sua política, a possibilidade de exprimir o seu voto e contestação sem demagogos do reino-do-faz-de-conta e acima de tudo tinha dificuldade em reconhecer a António - o Seguro, a capacidade de fazer e liderar a mudança. Um líder que confessa que se anulou durante largo tempo perante os seus adversários para um eventual bem do seu partido, certo voltará a o fazer perante outras situações e para gerir silêncios já nos basta o actual Presidente da Republica.

 

Mais intrigante, é que apesar da larguíssima vitória do António- o Costa, as hostes do António - o Seguro, prosseguiram barricadas na sua verdade. De nenhum se foi capaz de ouvir com honestidade algo semelhante a: foi uma grande e inequívoca derrota –ou- não fomos capazes de compreender que os portugueses não nos queriam como alternativa!! – Porque foi tudo isto que os militantes e simpatizantes disseram com o seu voto!

É completamente insano e até intolerável intelectualmente ouvir-se falar e louvar a dignidade do líder na hora de saída, como se um mero cumprimento de voz embargada ao vencedor, pudesse fazer esquecer os ataques pessoais e outras peripécias durante a campanha. Como se a política fosse uma esponja enorme com água e sabão que num ápice lava e apaga tudo! É quase pateticamente poético, ouvirmos o lamento terno de João Soares ou de Álvaro Beleza por António, o Costa, não ter tido uma palavra para o seu derrotado e combalido António - o Seguro! Onde estavam estes quando o seu digno líder achincalhava vários camaradas de partido politica e pessoalmente, trazendo a seira da roupa suja para o tanque de lavagem publico. Terá esquecido João Soares o que é ser denegrido, quando era na praça pública maquiavelicamente questionada a razão do seu apoio à Unita, ou com a eterna comparação com o seu pai e na sua derrota contra Santa Lopes? Terá Álvaro Beleza percebido que um país está muito para além de um pacto poético e ternurento entre amigos ou e de um desejo e que para o obter não é lícito arremessar e dizer tudo, sermos exigentes com os adversários e compassíveis, justificativos e piegas com os nossos. O direito á dignidade dos nossos oponentes não é menos importante que a nossa!

 

“E depois do Adeus..” de António- o Seguro, tenho o direito de sonhar que hoje a politica portuguesa mudou, não havendo mais espaço à demagogia, ao populismo desbragado, ao oportunismo temporal de “Beppe Grillo’s”, a pactos e desejos de amigos e amigalhaços que de imediato pedem como crianças nas brincadeiras peçangas depois de terem atirado primeiro as pedras todas ao outro lado da mesma rua. Em mim e em muitos portugueses ficará um sorriso sarcástico nos tempos mais próximos sempre que ouvirmos frases como: Olha, António…- ou - …e tu António… sabes o que fizeste?...

 

Que nos valha António - o Santo, que se saiba nem era de apelido Costa ou Seguro, mas que era tido por alguns como protector dos mudos que emudeça em instantes de desvario todos os Antónios deste reino! 

 

 

 

José Carlos Madeira

 

 

 

publicado por O Principe às 18:03

10
Set 14

 

Escritos à Quarta  

 

 

“OLHA ANTÓNIO…”

ou os versos de “E depois do Adeus”

 

O país esperou com expectativa a confrontação televisiva de ontem dos candidatos socialistas á liderança do partido e a possível futuro primeiro-ministro! António José Seguro e António Costa. Acabou por ser um debate com uma total nulidade de ideias para as questões reais do país, ideal para cada uma das hostes de apoiantes impor a bandeira da vitória mas que não interessará nada nem resultará por si em alguma derrota.

 

Dos dois Antónios, ficamos a não saber o essencial das suas pretensões para o país neste momento tão crítico como o de há quatro anos, em que tudo está por ser feito ao nível das reformas essenciais. De ambos não sabemos que tipo de estado pretendem, que tipo de sociedade, apenas ficam e restam no ar vagas intenções e desejos que fomos ouvindo aqui e ali.

 

Sabemos que António, o Seguro, deseja uma sociedade voltada para o crescimento, para o emprego e desenvolvimento, não vai aumentar os impostos, baixa o Iva da restauração e já fez as contas, pronto! – Como se fosse algo tão simples como carregar no botão da Máquina dos Desejos na Feira Popular e de pronto aparece o Mago e já está!..Ou como quem busca busca no Google uma receita de arroz-doce ou farófias (que desculpem lá as outras mães mas as da minha mãezinha eram únicas). Nem uma ideia concreta que tipo de Estado Social quer, como o vai sustentar e manter, que alterações profundas na sociedade portuguesa advoga e pretende fazer. Repetiu vezes contínuas a sua seriedade e a necessidade de uma nova forma de fazer politica mas utilizou essencialmente no debate uma receita antiga de ataque pessoal e intimidação mais ao nível dos tempos do PREC. António, o Costa, bem podia ter tido a presença de espirito e ter respondido às acusações de traição e deslealdade e falta de solidariedade com um “Olhe que não, olhe que não, (Dr. António) ” – relembrando-nos o verão quente de 1975 e o célebre debate entre Soares e Cunhal. Teria sido um momento único de televisão! Mas não, ficou-se nas cordas do ringue, amorfo, sustentando e esquivando-se com os seus princípios de consciência. No final ficou a ideia que o desejo tão intenso destes debates que tinha António, o Seguro, era essencialmente para publicamente, olhos nos olhos e perante uma plateia enorme chamar de traidor e desleal ao colega António, o Costa! Veio-me a imagem de um político e amante traído do seculo XIX que desafiaria o seu rival para um duelo às portas do Largo do Rato, daria um argumento fabuloso para uma obra de Camilo Castelo-Branco.

 

António, o Seguro, devia saber a regra de ouro de quem ocupa um cargo de direcção partidária e até em outros sectores, um líder assume-se desde o seu primeiro dia e não se deixa anular ou será sempre posto em causa e a qualquer momento será confrontado com o desafio ao seu poder. Mas este António esclareceu-nos prosaicamente que o se anulou por iniciativa própria durante bastante tempo para bem de todos, como uma dona de casa que tenta preservar o lar entre guerras e birras dos filhos, das zangas do marido com a sogra e se vai mantendo num silêncio podre à frente da família e um dia decide pôr cobro a tudo e dá uma valente sofá aos pequenotes, põe as malas á porta ao marido e a mãe num lar! Esqueceu-se da chamada “noite das facas frias” em que quando é confrontado pelo outro António, o Costa, que depois recua no seu desejo de assaltar o poder, acaba a pedir abracinhos ao seu rival e a propor acordos a lembrar as guerras “de Alecrim e Manjerona” uma ópera sátira e jocosa como toda esta trama. A corroborar a sua constante desastrada estratégia, se de facto a tem e não é tudo mais feitio e temperamento, o que será mais perigoso, ficaram ontem os portugueses com um sorriso cínico e trocista quando escutaram da sua voz que se demitirá senão tiver outra opção que não seja aumentar os impostos. Não explica qual é a sua equação, que contas fez, de onde subtrai, onde acrescenta e divide para multiplicar por todos. Sabemos que se for eleito primeiro-ministro será em 2015 e só será hipoteticamente responsável pelo orçamento do ano seguinte! E no próximo ano várias contingências, essencialmente internacionais, poderão alterar por completo todas as contas e equações idealizadas… ou pretenderá rasgar todos os compromissos com a união europeia e ser um outsider – não lhe reconheço tanta ousadia e coragem (ou melhor irresponsabilidade). Todo o país percebeu a “azelhice” e comentou-a durante o dia, como aconteceu na noite das eleições Europeias que começou com o seu candidato aos “saltos” reivindicando uma vitória estrondosa que depois se veio a verificar para todos que foi pífia mas que ainda hoje o António, o Seguro, assume como histórica fazendo uma análise tal qual um treinador de futebol que venceu com um penalti no último minuto a equipa rival e diz aos associados que deu um “ ganda banho-de-bola”. Em tudo isto António, O Costa, remeteu-se ao silêncio escondendo-se uma vez mais nas cordas com o argumento que tudo tem de ser ponderado e é um homem de consciências.

 

Do Costa, desculpem, do António, de quem a maioria dos portugueses e penso que também dos simpatizantes do Partido Socialista, está-se a borrifar se foi leal ou desleal, traidor ou fura-acordos e se preocupam mais com quem poderá ser o seu primeiro-ministro, ficamos a saber que é ponderado porque terá um plano para o país, que também assenta no Estado Social, no crescimento e no emprego e numa sociedade de ideais de esquerda que mais tarde saberemos em que tudo se fundamenta como que numa benevolência magnânima para não nos saturar com muita informação.

O debate, que ficará conhecido como o dos “Antónios” ou do “…isto não se faz António”, resumiu-se á imagem de um combate de boxe, em que um dos pugilistas, desta vez o António, o Seguro, entrou de rompante mostrando estar cheio de energia e vivo, bateu, bateu mas sempre com a mesma mão enquanto António, o Costa, se refugiou ordeiramente nas cordas, no canto menos iluminado esperando que o seu adversário se perdesse no seu próprio folguedo. No final, os treinadores torceram o nariz, limpou o suor da testa, antevendo tempos difíceis e disse: “Olha António…se queres ganhar isto tens que fazer mais….”

 

Teria sido um bom debate nos anos oitenta mas para um congresso da Juventude Socialista mas a idade dos Antónios já não permite estas coisas e o país merece mais. Hoje, como nas longas noites do Festival da Canção das décadas de sessenta e setenta do século, o país vai-se sentar a assistir ao segundo round entre os Antónios, torcendo entre a Madalena Iglésias e a Simone de Oliveira! Desculpem: entre o Seguro e o Costa! Eu cá por mim prefiro o Paulo de Carvalho só por causa do “…E depois do Adeus”, cujos primeiros versos bem podiam ser declamados pelos dois (nenhum parece ter voz para cantar): Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci… - e seria como uma justificação para este medíocre desempenho que nos deram ontem!

 

Os portugueses precisam de mais e melhor para acreditar neste PS que se vai agonizando até às eleições do final do mês, de debate em debate. Cheguem elas rápido e pare a pobre opereta!

 

José Carlos Madeira

 

 

publicado por O Principe às 19:55

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