ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS - À DESCOBERTA DO NOVO TRIPLO DE ZERO
O Principe
14.10.25
À DESCOBERTA DO NOVO TRIPLO DE ZERO

Por fim, terminaram as eleições, mas muita tinta ainda vai ser gasta, sobretudo a justificar os resultados. Chegamos à conclusão que ganharam todos mesmo aqueles que ficaram muito aquém dos seus objetivos. Na politica a matemática, não é algo preciso, 2+2 não são quatro, e o triplo de zero não é zero. Perder 3 camaras e não compensar com outras vitórias, não é sinal de derrota, porque a dita matemática dos lideres partidários tem pressupostos, equações, interpretações que só eles conhecem. Com os exemplos dos políticos, não admira que a matemática seja uma disciplina com grande dificuldade de aprendizagem no ensino nacional.
Seriamente, há que admitir que o PSD, foi o vencedor da noite, mesmo perdendo capitais de distrito como Bragança, Viseu, Faro e Coimbra, para os socialistas. Se houve uma surpresa, foi de facto Viseu, um bastião social-democrata, com um autarca que esteve mais de 28 anos a liderar a autarquia, Fernando Ruas, uma figura de relevo entre os "barões" da politica que resistem no PSD, cuja opinião foi sempre tida muito em conta nas contendas internas pois representava uma fatia de votos estável para o partido, nestes 51 anos de democracia. No entanto, consegue ganhar os grandes centros urbanos, como Lisboa, Porto, Gaia e Braga, neste caso com uma diferença mínima de votos. Venceu com o maior numero de camaras, teve mais votos e portanto não há que escamotear e inventar, é o vencedor quer se goste ou não! A confirmar esta vitória, assume por consequência a liderança da Associação Nacional de Municípios, largos anos sobre o domínio socialista.
O Partido Socialista, quem se diz que obteve uma votação digna, apesar de vitórias históricas como em Viseu, Bragança, conseguiu estancar a perda de votos, na autêntica hecatombe, das recentes eleições legislativas. Ganhou em Faro, onde o Chega, colocou o seu número dois, Pedro Pinto, com uma campanha e discurso agressivos, como é seu apanágio. Apesar de vários resultados de realce, perde nos grandes centros urbanos, Lisboa, Porto e Braga, com a maior desilusão a ser Lisboa em que Alexandra Leitão ficou bastante aquém do que se esperava. Apesar da dita votação digna, temos que admitir que há uma derrota num momento em que o seu rival está no governo com o seu líder debaixo de fogo pelos casos que envolvem a sua empresa, com acusações de pouca transparência. A verdade é que o José Luís Carneiro e a sua equipa herdaram alguns candidatos, já escolhidos pelo seu antecessor. Fica a dúvida se teria lançado os meus nomes. Estancar uma perda significativa de votos em relação às eleições legislativas, não resulta numa vitória. A perda da direção da Associação Nacional de Municípios é uma derrota. Fiquemos pela matemática da votação digna e das já mencionadas vitórias inesperadas e valorosas.
O PCP-PEV, é o exemplo que a matemática, é mais que os números finais, de perdas e ganhos, mas sim o que o discurso do líder concluiu, em conformidade com o Comité Central. Ao longo das duas últimas duas décadas, a perda de votos é constante entre eleições. Mas o discurso oficial, tem sempre equações muito próprias, resultado de uma aritmética em que há sempre um "período muito difícil em que vivemos", "dificuldades impostas por fatores externao", "o combate ao inimigo", a ilusão "de resistência", entre tantos outros números que só os lideres e o comité central conhecem. Há uma matemática paralela, dos partidos e regimes comunistas, algo etéreo, só ao alcance do líder. E se o líder diz, vai-se enganado a evidência da erosão do partido ao nível nacional, sem que haja vontade de uma mudança de discurso porque os tempos são bem diferentes do período pós-revolucionário. A matemática dos votos e da aceitação dos portugueses resultou em 12 camaras, mesmo perdendo votos e camaras para o PS, vêm noite após noite eleitoral anunciar vitória. Face ao momento que o PCP atravessa, é um numero muito positivo pois esperava um numero muito menor.
O CDS, um partido da fundação da democracia em Portugal, que perdeu expressão nacional, tendo nas ultimas eleições legislativas que concorreu sozinho perdido a representação parlamentar, não atingindo sequer os 2% da votação. Ao nível nacional é uma espécie de partido-zombie, que Luís Montenegro, primeiro-ministro e líder do PSD, lançou uma boia de salvação, fazendo uma coligação desnecessária quando nos referimos à mais valia dos seus votos. Só Deus e o Luís sabem porque o faz. Há quem diga que é para estancar o crescimento do Chega, mas o resultado foi o contrário. Consegue nestas autárquicas um resultado que a muitos surpreendeu, mantém as suas camaras e com um razoável sucesso ao nível de votos. Fica com a gestão de 6 camaras, e de imediato o ego dos seus lideres sobreviventes, tomou proporções muito desenquadradas com valor que real ao nível nacional. O CDS, só se pode queixar de si próprio, das guerrilhas internas, dos golpes palacianos e egos desmedidos, sem compreender que ainda mais à sua direita, como se fosse possível num país democrático e de bons costumes como Portugal, surgia um partido que ajudaria à sua quase extinção e insignificância, coadjuvado pela incognita constante da Iniciativa Liberal.
Depois temos o Chega, que lançou todas as cartas nestas eleições de forma a demonstrar a sua força ao nível nacional e esperando a transposição do seu crescimento nas eleições legislativas para o plano autárquico. Fui sempre da opinião, otimista, que o valor que obteve na ocasião tinha como fundamento um momento especifico em que uma franja substancial do eleitorado, quis penalizar por intuição as guerras entre os dois maiores partidos, as suas consequências na gestão politica e os diversos casos que acabaram por arrastar o país uma vez mais para eleições. Claro que existiu e não pode ser descurado um voto ideológico e perigoso em que todo o discurso assente na xenofobia, na perseguição às minorias, no discurso histérico e sem rigor em que capta sempre uma franja infeliz de eleitores pouco avisados e com uma cultura democrática e cívica em que tudo se resume a uma conversa e discussão de conteúdo e linguagem primárias. O líder além de omnipresente em todas as distintas campanhas pelo país e nos outdoors de todos os candidatos, lançou os seus mais fieis para camaras importantes, Sintra, Faro, Oeiras, Amadora, Loures e o resultado foram derrotas sem apelo. Anunciou que a meta do partido seria conquistar 30 camaras. Conquistou apenas 3!! Uma na região autónoma da Madeira, com maioria, outra no Algarve, Albufeira, e no centro país Entroncamento, ambas sem maioria. As três juntas, a nível de população não atingem os 100.000 habitantes, ficando pelos 75.000 habitantes. Os seus principais oficiais de campo perderam com percentagens muito inferiores à média nacional da sua votação. Nenhum deles conseguiu um honroso segundo lugar, se é que assim se pode adjetivar face aos comportamentos e ao discurso de vários, principalmente de Rita Matias, Pedro Pinto e Pedro Frazão. Este último com um vergonhoso resultado de 8,4%, que só o próprio tenta negar a rejeição com que os cidadãos de Oeiras premiaram o seu comportamento e desempenho. André Ventura no dia das eleições, admitiu de uma forma tímida que "nem todos os objetivos tinham sido atingidos", no momento seguinte saltou para a estrada para ir celebrar a vitória na Camara de Cantanhede, tentando levar consigo as camaras de televisão, em mais um episódio de assumir o protagonismo e monopolizar as emissões dos canais de informação. A noite era do PSD e de Luís Montenegro, que de forma inteligente saltou para a estrada, com o seu núcleo mais próximo, para festejar com alguns vencedores, caso do Pedro Duarte, no Porto, e de Luís Filipe Meneses em Vila Nova de Gaia. Se não fosse o habitual comportamento da CMTV, Ventura ficaria completamente a falar sozinho. No dia seguinte tínhamos todos os oficiais de campo na televisão e nas redes sociais a tentar minimizar os danos e com a versão aritmética que também foram vencedores na noite anterior. O numero de votos totais foi menos de metade do que atingiram nas eleições legislativas e o argumento que são um partido novo, não é válido pois o excesso de otimismo e arrogância apontavam para a conquista de 30 concelhos. Vai daí, dois dias depois surge toda a força comunicacional do partido nas televisões, na imprensa e nas redes sociais, com uma leitura quase patética dos resultados. Além de Rita Matias e Bruno Nunes, também um dos maiores derrotados Pedro Frazão, a tentar recuperar o que não é possível e a mostrar trabalho, dedicação e fidelidade ao líder, gritando desesperadamente que não houve nenhum desaire. Todos e concertadamente fizeram o que melhor sabem que é a politica da desestabilização e da ameaça. Segundo eles, não haverá governabilidade na generalidade dos concelhos que não têm maioria de um só partido, se não cederem às exigências do Chega e dos seus dirigentes. Esquecem-se, e esperemos que sim, que os principais partidos políticos aprenderam com o último resultado eleitoral nas legislativas, que não podem estar dependentes da ação e de acordos com o Chega. O melhor exemplo, foram as eleições para o governo da região Autónoma dos Açores, cujo governo viabilizado através de um acordo com o Chega rapidamente caiu. As duas camaras que o Chega venceu no continente não têm maioria e estão à mercê dos opositores facilmente em caso de guerrilha generalizada para a ingovernabilidade no poder autárquico. A politica do Chega sustenta-se na ingovernabilidade. Poderemos estar na iminência de vermos o cão feroz, às voltas atrás do seu rabo. O Chega sabe que estas duas camaras são essenciais para o seu projeto, de forma a poderem demonstrar que são capazes de assumirem responsabilidades executivas. Precisam a todo o custo de as manter até ao fim dos mandatos, de mostrarem trabalho e responsabilidade. Parece difícil! Em Portugal 20 grupos de cidadãos independentes, unidos somente para o efeito, venceram 20 camaras, sem apoio de qualquer partido ao nível financeiro e logístico.
O episódio mais caricato da matemática politica, vem como se esperava do Chega que entre outros extraordinários exercícios de propaganda, anuncia nas redes sociais que triplicou o numero de camaras. O numero de partida para comparação era 0 (nenhuma) e como agora tem 3 conclui que triplicou, se fossem 4, quadruplicara e por aí fora. Seriam capazes de dizer que tinham duplicado em caso de terem ganho apenas duas. Este discurso serve para os mais incautos e junto daqueles que a última coisa que leram foi um manual de instruções de montagem de um móvel do IKEA, com textos curtos e muitas figurinha. Não houve a triplicação de nenhum numero porque...não havia numero de referência! Meu caro Pedro Frazão e restante entourage, o zero é zero, simplificando é nada! Deixo-vos uma breve e simples explicação que podem tentar obter no Google, quiçá junto do filho mais novo ou então simplesmente peguem numa calculadora mesmo baratinha.
"O triplo de zero é zero (3 X 0 = 0). O resultado de qualquer numero multiplicado por zero é zero!!
José Carlos Madeira
14-OUT-2025













