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MORDIDELA

JOSÉ CARLOS MADEIRA

MORDIDELA

JOSÉ CARLOS MADEIRA

DIZEM POR AÍ QUE MORREU HERBERTO HÉLDER


O Principe

24.03.15

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                                                                 DIZEM POR AÍ QUE MORREU HERBERTO HÉLDER

 

 

Dizem por aí que morreu Herberto Hélder, o poeta.

Mais que um poeta, um homem de pensamento livre. Decidiu com liberdade e coragem sempre a sua vida e o que fazer com a sua obra. A sua poesia era dele, emprestada á voz e à imaginação dos outros. Nunca se subjugou a editores, agentes literários e a críticos. Foi o que foi, nunca deixou que fizessem de si e da sua obra o que não quis. Traçou o seu caminho no acaso da independência, deixou-se ir pela corrente do seu próprio rio fazendo sempre o que melhor conseguiu em cada represa que lhe foi colada, muitas vezes traiçoeiramente. De todo o trajecto sobejou caracter, a sua liberdade, a sua resistência ao status quo instalado em todos naipes intelectuais deste país arregimentado.

No rio que foi a sua vida, deslizou, colheu imagens que transformou em palavras tão unicamente escritas e ditas, construiu e destruiu castelos, embalou e estremeceu-nos, brincou com as palavras com dureza como as arredondou, deu-lhes cor, movimento e música como ninguém o fez.

Abro a televisão e os noticiários insistem: morreu Herberto Hélder! Como se fosse possível um poeta morrer, é tão simplesmente uma parte do seu trajecto, a chegada á sua foz onde as suas águas tão diferentes dos demais se juntarão sem se confundirem com as de Pessoa, de Jorge Sena, de Sophia de Mello Breyner. E se ao olharem para o mar virem um pedaço verde que se transmuta o tempo todo e resiste à ondulação e á espuma que vêm beijar as areias dos mais comuns e da vulgaridade, aí está o Herberto Hélder.

Fico com a sensação que Pessoa, ordenará a Álvaro de Campos que vá na sua moderna barcaça receber Herberto com os braços abertos cintando-se a si mesmo:

E proclamo (meu caro Herberto-imagino eu a forma)

(…)

Primeiro:

O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo!

E proclamo também: Segundo:

O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo!

E proclamo também: Terceiro:

O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico!

Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando(-te, digo e imagino eu uma vez mais) abstractamente o Infinito.

 

Herberto Hélder é um poeta que viverá ao longo dos tempos pelas suas palavras, pela sua diferença harmoniosa, e o mais importante serão sempre os seus poemas e a única forma de o elogiar, enaltecer, fazer valer a pena cada dia da sua existência entre nós, é lê-lo e dar a ler aos outros, partilhar! Daí que o mais importante neste texto é a poesia de Herberto Hélder e por isso transcrevo o poema que tantas vezes reli:

 

A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe

A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe - 
ouvi dizer toda a neve. 
As árvores crescem nos satélites. 
Que hei-de fazer senão sonhar 
ao contrário quando novembro empunha - 
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos? 
As nuvens, aviões, mercúrio. 
Novembro - mãe - com as suas praças 
descascadas. 

A neve sobre os frutos - filho, filho. 
Janeiro com outono sonha então. 
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites 
sonham pela lua dentro na sua bicicleta. 
Ouvi dizer novembro. 
As praças estão resplendentes. 
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto. 
Aviões passam no teu nome - 
minha mãe, minha máquina - 
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve. 

Avança, memória, com a tua bicicleta. 
Sonhando, as árvores crescem ao contrário. 
Apresento-te novembro: avião 
limpo como um alfabeto. E as praças 
dão a sua neve descascada. 
Mãe, mãe — como janeiro resplende 
nos satélites. Filho — é a tua memória. 

E as letras estão em ti, abertas 
pela neve dentro. Como árvores, aviões 
sonham ao contrário. 
As estátuas, de polvos na cabeça, 
florescem com mercúrio. 
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro, 
é a neve avançando na sua bicicleta. 

O alfabeto, a lua. 

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem. 
Era pesada, ao colo, cheia de neve. 
la dizendo o teu nome de janeiro. 
Enxofre — mãe — era o teu nome. 
As letras cresciam em torno da terra, 
as telhas vergavam ao peso 
do que me lembro. Começo a lembrar-me: 
era o atum negro do teu nome, 
nos meus braços como neve de janeiro. 

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha, 
e as praças se descascam, 
e os satélites avançam, 
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem 
(eu vi): era pesada. 

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas. 
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes, 
estátuas negras no teu nome, 
no meu colo. 

Era a neve que nunca mais acabava. 

Começo a lembrar-me: a bicicleta 
vergava ao peso desse grande atum negro. 
A praça descascava-se. 
E eis o teu nome resplendente com as letras 
ao contrário, sonhando 
dentro de mim sem nunca mais acabar. 
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua 
batia pelo ar fora. 
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios 
do meu nome negro, e nunca mais 
acabava de nevar. 

Era novembro. 


Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio 
crescendo com toda a força em volta 
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes 
tanta força com os pés contra o teu nome, 
no meu colo? 
Eu ia lembrar-me: os satélites todos 
resplendentes na praça. Era a neve. 
Era o tempo descascado 
sonhando com tanto peso no meu colo. 

Ó mãe, atum negro — 
ao contrário, ao contrário, com tanta força. 

Era tudo uma máquina com as letras 
lá dentro. E eu vinha cantando 
com a minha paisagem negra pela neve. 
E isso não acabava nunca mais pelo tempo 
fora. Começo a lembrar-me. 
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos 
de peixe, tua coluna 
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha 
cantando na neve que nunca mais 
acabava. 

O teu nome negro com tanta força — 
minha mãe. 
Os satélites e as praças. E novembro 
avançando em janeiro com seus frutos 
destelhados ao colo. As 
estátuas, e eu sonhando, sonhando. 
Ao contrário tão morta — minha mãe — 
com tanta força, e nunca 

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora. 

 

HERBERTO HÉLDER

 

Eu continuarei por aqui como tantos outros a ler, a dizer, a declamar, a encontrar caminhos largos em cada teu poema. Obrigado (porque tu foste o maior de todos sem saltos altos, sem bicos de pés, sem muletas) porque nos deixaste o teu melhor…

 

José Carlos Madeira

MAS QUE RAIO DE NEGÓCIO (…eu havia de arranjar! Trabalho até saturar, memória nem falar)


O Principe

01.10.14

 

 

Escritos à Quarta...

 


MAS QUE RAIO DE NEGÓCIO

(…eu havia de arranjar! Trabalho até fartar, memória nem falar)

                   Os meus colaboradores e toda família divertem-se com o meu problema com portas e as respectivas chaves. A minha hiperactividade, faz com que quase diariamente tenha situações recorrentes de ser demasiado cuidadoso a fechar as portas mas a nunca salvaguardar que tenho de facto as suas chaves comigo. Inclusive já mudei o tipo de fechadura do meu gabinete para que só seja trancada com a introdução da própria chave. Este meu desvario, assim chamo á falta de melhor adjectivação porque é mais que uma mera distracção, tem-me causado problemas sérios, perturbando a agenda completa do dia, como me bloqueia por completo durante horas seguidas além de me pôr possesso contra mim mesmo! Mas, o pior tem sido as contas para os senhores das fechaduras, conhecidos como “abridores de portas” que tenho três ou quatro nomes sempre na minha agenda de contactos para as constantes urgências. A dimensão chegou ao ponto de um colaborador dizer-me,na chacota, que devia ter um “abridor de portas” permanente na empresa.

                 Pensei que o problema era só comigo ou com outros com esta disfunção mas todos ficámos a saber nas últimas semanas que o mesmo se passa inclusive com intitulas "empresas importantes", que se vêm obrigadas a contratar “abridores de portas”. É mesmo um problema nacional que desconhecia e houve quem suspeitasse que o melhor local para os recrutar é para as cercanias de S. Bento (mas não é exclusivo). No entanto, os meus “abridores de portas” são muito mais exigentes, além de lhes ter de pagar a deslocação e o serviço, acrescentam o Iva e não fazem qualquer desconto em relação á quantidade contratada de serviços ou por ser um cliente assíduo. E fico mais furioso ao saber que os outros “abridores de portas ” são de fraca memória e muito compreensivos com o bem de todos trabalhando muitas vezes por bondade e um mero almocinho, jantareco ou uma viagenzita! Os meus “abridores” têm uma memória impressionante e nunca aceitam nada para além do cafezito da máquina manhosa do escritório quando o problema se dá para aquelas bandas. Há tempos um deles, o Sr. Serafim da Bernarda (assim chamado porque é a mulher, a dita Bernarda, quem manda por aqueles lados), quando o questionei por um desconto além de dizer que a patroa não gostava desses pedidos, fez questão de me lembrar que da última vez para simplificar os trocos me tinha cobrado menos uns míseros cinco euros, e atirou-me ainda cheio de personalidade: veja lá a factura da semana passada!! - Restou-me desabafar para a gravata que o raio do meu “meu abridor de portas” para além da fidelidade em contas à Bernarda tem cá um temperamento de me#$*†‼ŤᴪL!!

                Duas semanas consecutivas esteve o país inteiro a discutir “os abridores de porta” e a sua memória, por causa do Vasco ter reclamado! Debateu-se o que almoçam, jantam, onde dormem e as contas das suas imensas despesas. Sim, porque um bom “abridor” é um homem de muitas despesas e nunca passa de um remediado. O Vasco pode ter razão mas foi um bocadinho queixinhas talvez porque o seu “abridor” seja do tipo Serafim da Bernarda ou então é mesmo um ressabiado “abridor de portas” por alguém lhe ter tirado um cliente.

                   Isso já me aconteceu uma certa vez que o Serafim da Bernarda não dava sinal de vida e a devida atenção à minha urgência e chamei o Leonel da Rotunda, um tipo que apesar dos seus cento e vinte quilos, é muito mais lesto e de vez em quando mais compreensivo com o meu problema e faz uma atençãozita. Nessa ocasião o Serafim da Bernarda quando o confrontei com o preço do Leonel, olhou-me por cima dos óculos de lentes fundo-de-garrafa e metralhou-me severamente com palavras duras acompanhadas de perdigotos ainda do café da manhã: Oiça lá!! Pensa que não tenho memória? Tenho mulher para dar o dinheiro e recibos para passar. Desconto mas que desconto! Não sou um “abridor” gordo de uma rotunda qualquer – não me restou outra coisa que desabafar mais uma vez para a minha gravata: me#$*†‼ŤᴪL de “abridor de portas” que arranjei! 

                     Hoje, início de um novo mês, quando fazia o resumo e as contas do trimestre anterior e repensando o negócio dei por mim a pensar: que falta me faz um bom “abridor de portas”, porque esta crise além de incomodar como carraça no pêlo do cão, o trabalho é cada vez mais, a rentabilidade menor e a prole tem que ser criada e sustentada. Um bom “abridor” dava cá um jeitão mas um desses que se fala! Pouca memória, pouca confusão com papéis mas muito diligente e sério. Todos sabemos que um bom “abridor de portas” conhece sempre outros abridores que são amigos de donos de portas no estrangeiro e nunca se sabe onde, quando e como se precisa de um!

                   Desculpem, mas um “abridor de portas” dá sempre jeito! Quem nunca desejou um na fila das finanças, do hospital, na banca fique com a carraça do cão!

 

José Carlos Madeira

"E depois do Adeus...que nos valha António - o Santo"


O Principe

30.09.14

 

Escrito ao domingo…

 

 

 

 

 

 

“ E depois do Adeus…que nos valha António - o Santo”

 

Na política a dignidade é o que é! Dependente do momento, das circunstâncias e de quem apregoa! Hoje terminou a extensíssima e nefasta batalha das primárias para a eleição do candidato a primeiro-ministro, com a vitória de António - o Costa. O tal, dos dois Antónios, que foi apregoado como traidor, desleal, o homem subjugado aos interesses financeiros e á promiscuidade dos negócios com a política. Ao escutar este chorrilho de acusações fortes a maioria dos portugueses que já assumiu a maioridade democrática olharia de soslaio para tão vil personagem e de certeza que não se deixaria embrenhar, nem iludir depois de em intensos dois meses o seu adversário, o António - o Seguro, ter ininterruptamente alertado em voz alta aos quatro ventos para os perigos da indignidade do outro. No entanto, hoje (domingo) uma parte dos portugueses, numa manifestação ímpar na nossa democracia acorreu às urnas e disseram que preferiam o traidor, o desleal, o político das negociatas, o amigo dos amigos de empresas dúbias! Dito da forma acima, parece uma tragédia e que a maioria de uma nação ainda está mergulhada no obscurantismo e na ignorância mas é exactamente o seu contrário! A grande e surpreendente participação de militantes e simpatizantes socialistas nestas primeiras primárias em Portugal de um dos grandes partidos sistémicos demonstrou a maturidade de um democracia e a fórmula correcta para levar os portugueses a intervirem cada vez mais na vida politica e a decidirem desde a base quem desejam para comandar os seus desígnios e não confrontados irremediavelmente com escolhas internas e resultante da correlação sempre duvidosa ente as facções partidárias.

 

Além da participação do nível de participação é de realçar sobretudo o entusiasmo e o espirito de missão que era visível nos participantes nas filas de espera, nos grupos de amigos que discutiam perto das assembleias, nos cafés e em outros locais. Apesar dos meus pacos nove anos de idade aquando das primeiras eleições livres em Portugal, recordo-me desse momento e essencialmente do entusiasmo, até uma expressiva alegria vivida que via em familiares, amigos e vizinhos. Ontem recordei esse tempo e até com alguma emoção, porque não descurem os trocistas que é um momento novo e de viragem na vida dos portugueses e que no futuro nada será como conheceram até aqui ao nível politico. Ouve um recado sublimar de uma nação á classe política: se permitirem participar nas decisões do sistema politico no seu todo, se não tiverem medo que os resultados ponham em causa os interesses de grupos e grupelhos, os portugueses dizem um sim em massa á sua participação e não se coíbem em decidir.

 

Mas para além do nível de participação ter proporcionado um momento histórico, tenho a certeza que virá a constar nos manuais de história como o “consolidamento” da democracia num tempo de crise generalizada mas o seu resultado também não é de menor importância, como sub-repticiamente os vencidos tentam secundarizar, perante o autêntico soco no estômago que receberam. O resultado e a  diferença final entre os candidatos, recebendo o vencedor cerca de 70% dos votos, não deixam margem de dúvidas quanto à opinião e ao desejo dos votantes em relação aos dois opositores! Daqui se deve tirar conclusões, não só dentro do Partido Socialista ou em especial da facção perdedora que apostou na fórmula do populismo desbragado, apimentado com o ataque pessoal e da vitimização choramingas! Talvez inconscientemente foram induzidos num erro primário de análise do resultado das últimas eleições Europeias que despoletaram esta contenda; tomaram como assertiva e de resultado fácil a estratégia de Marinho e Pinto, que utilizando um partido existente e inaugurando o sistema de barriga-aluguer politico, retirou muitos votos ao PS liderado por António, o Seguro, com um populismo demagogo e até caduco. Os conselheiros do secretário-geral do Partido Socialista, não conseguiram discernir que os votos que perderam então para Marinho Pinto, não foram consequência de alguma estratégia pensada e coordenada, pelo caracter do personagem e muito menos por um eventual programa político. A eleição de Marinho e Pinto e por arrasto mais um compincha desconhecido do partido-barriga-de-aluguer, obtendo a inimaginável percentagem de 7.7%, foi só e apenas o resultado de um voto maciço de protesto de um eleitorado de centro-esquerda que além de descontente com a maioria de centro-direita da governação, não se revia e não acreditava numa alternativa protagonizada por António José Seguro que nunca foi capaz de galvanizar e entusiasmar para além do seu restrito grupo de indefectíveis! Em vez de assumirem este facto e reconhecerem os pacos resultados, insistiram numa estratégia ao estilo de D. Quixote alienados da realidade, tentando que todos vislumbrássemos “moinhos de vitórias épicas” onde apenas existiu uma pifíssima vitória! O mais impressionante é que para além de não perceberem que não eram escutados pela esmagadora maioria, continuaram em altos gritos a apregoar por uma vitória épica não percebendo que o que escutavam de retorno era apenas e só o eco das suas vozes e o que vislumbravam era uma miragem do que apenas desejavam. Na vida política quase sempre um desejo não é mais que um moinho de vento, que roda, roda mas se o moleiro não tem bom ou sequer algum trigo, nenhuma boa farinha fará, apenas se limitando a rodar e a libertar um silvo ao vento… Não entenderam que neste momento politico em Portugal, a maioria não estava interessada se António - o Costa, era tido como traidor, desleal ou quem era o Godinho de Matos, o homem das negociatas, que de repente viu-se na ribalta e nas paragonas sem perceber porquê! O que a esmagadora maioria dos seus militantes e simpatizantes era uma alternativa diferente de Passos Coelho e da sua política, a possibilidade de exprimir o seu voto e contestação sem demagogos do reino-do-faz-de-conta e acima de tudo tinha dificuldade em reconhecer a António - o Seguro, a capacidade de fazer e liderar a mudança. Um líder que confessa que se anulou durante largo tempo perante os seus adversários para um eventual bem do seu partido, certo voltará a o fazer perante outras situações e para gerir silêncios já nos basta o actual Presidente da Republica.

 

Mais intrigante, é que apesar da larguíssima vitória do António- o Costa, as hostes do António - o Seguro, prosseguiram barricadas na sua verdade. De nenhum se foi capaz de ouvir com honestidade algo semelhante a: foi uma grande e inequívoca derrota –ou- não fomos capazes de compreender que os portugueses não nos queriam como alternativa!! – Porque foi tudo isto que os militantes e simpatizantes disseram com o seu voto!

É completamente insano e até intolerável intelectualmente ouvir-se falar e louvar a dignidade do líder na hora de saída, como se um mero cumprimento de voz embargada ao vencedor, pudesse fazer esquecer os ataques pessoais e outras peripécias durante a campanha. Como se a política fosse uma esponja enorme com água e sabão que num ápice lava e apaga tudo! É quase pateticamente poético, ouvirmos o lamento terno de João Soares ou de Álvaro Beleza por António, o Costa, não ter tido uma palavra para o seu derrotado e combalido António - o Seguro! Onde estavam estes quando o seu digno líder achincalhava vários camaradas de partido politica e pessoalmente, trazendo a seira da roupa suja para o tanque de lavagem publico. Terá esquecido João Soares o que é ser denegrido, quando era na praça pública maquiavelicamente questionada a razão do seu apoio à Unita, ou com a eterna comparação com o seu pai e na sua derrota contra Santa Lopes? Terá Álvaro Beleza percebido que um país está muito para além de um pacto poético e ternurento entre amigos ou e de um desejo e que para o obter não é lícito arremessar e dizer tudo, sermos exigentes com os adversários e compassíveis, justificativos e piegas com os nossos. O direito á dignidade dos nossos oponentes não é menos importante que a nossa!

 

“E depois do Adeus..” de António- o Seguro, tenho o direito de sonhar que hoje a politica portuguesa mudou, não havendo mais espaço à demagogia, ao populismo desbragado, ao oportunismo temporal de “Beppe Grillo’s”, a pactos e desejos de amigos e amigalhaços que de imediato pedem como crianças nas brincadeiras peçangas depois de terem atirado primeiro as pedras todas ao outro lado da mesma rua. Em mim e em muitos portugueses ficará um sorriso sarcástico nos tempos mais próximos sempre que ouvirmos frases como: Olha, António…- ou - …e tu António… sabes o que fizeste?...

 

Que nos valha António - o Santo, que se saiba nem era de apelido Costa ou Seguro, mas que era tido por alguns como protector dos mudos que emudeça em instantes de desvario todos os Antónios deste reino! 

 

 

 

José Carlos Madeira

 

 

 

“OLHA ANTÓNIO…” ou os versos de “E depois do Adeus”


O Principe

10.09.14

 

Escritos à Quarta  

 

 

“OLHA ANTÓNIO…”

ou os versos de “E depois do Adeus”

 

O país esperou com expectativa a confrontação televisiva de ontem dos candidatos socialistas á liderança do partido e a possível futuro primeiro-ministro! António José Seguro e António Costa. Acabou por ser um debate com uma total nulidade de ideias para as questões reais do país, ideal para cada uma das hostes de apoiantes impor a bandeira da vitória mas que não interessará nada nem resultará por si em alguma derrota.

 

Dos dois Antónios, ficamos a não saber o essencial das suas pretensões para o país neste momento tão crítico como o de há quatro anos, em que tudo está por ser feito ao nível das reformas essenciais. De ambos não sabemos que tipo de estado pretendem, que tipo de sociedade, apenas ficam e restam no ar vagas intenções e desejos que fomos ouvindo aqui e ali.

 

Sabemos que António, o Seguro, deseja uma sociedade voltada para o crescimento, para o emprego e desenvolvimento, não vai aumentar os impostos, baixa o Iva da restauração e já fez as contas, pronto! – Como se fosse algo tão simples como carregar no botão da Máquina dos Desejos na Feira Popular e de pronto aparece o Mago e já está!..Ou como quem busca busca no Google uma receita de arroz-doce ou farófias (que desculpem lá as outras mães mas as da minha mãezinha eram únicas). Nem uma ideia concreta que tipo de Estado Social quer, como o vai sustentar e manter, que alterações profundas na sociedade portuguesa advoga e pretende fazer. Repetiu vezes contínuas a sua seriedade e a necessidade de uma nova forma de fazer politica mas utilizou essencialmente no debate uma receita antiga de ataque pessoal e intimidação mais ao nível dos tempos do PREC. António, o Costa, bem podia ter tido a presença de espirito e ter respondido às acusações de traição e deslealdade e falta de solidariedade com um “Olhe que não, olhe que não, (Dr. António) ” – relembrando-nos o verão quente de 1975 e o célebre debate entre Soares e Cunhal. Teria sido um momento único de televisão! Mas não, ficou-se nas cordas do ringue, amorfo, sustentando e esquivando-se com os seus princípios de consciência. No final ficou a ideia que o desejo tão intenso destes debates que tinha António, o Seguro, era essencialmente para publicamente, olhos nos olhos e perante uma plateia enorme chamar de traidor e desleal ao colega António, o Costa! Veio-me a imagem de um político e amante traído do seculo XIX que desafiaria o seu rival para um duelo às portas do Largo do Rato, daria um argumento fabuloso para uma obra de Camilo Castelo-Branco.

 

António, o Seguro, devia saber a regra de ouro de quem ocupa um cargo de direcção partidária e até em outros sectores, um líder assume-se desde o seu primeiro dia e não se deixa anular ou será sempre posto em causa e a qualquer momento será confrontado com o desafio ao seu poder. Mas este António esclareceu-nos prosaicamente que o se anulou por iniciativa própria durante bastante tempo para bem de todos, como uma dona de casa que tenta preservar o lar entre guerras e birras dos filhos, das zangas do marido com a sogra e se vai mantendo num silêncio podre à frente da família e um dia decide pôr cobro a tudo e dá uma valente sofá aos pequenotes, põe as malas á porta ao marido e a mãe num lar! Esqueceu-se da chamada “noite das facas frias” em que quando é confrontado pelo outro António, o Costa, que depois recua no seu desejo de assaltar o poder, acaba a pedir abracinhos ao seu rival e a propor acordos a lembrar as guerras “de Alecrim e Manjerona” uma ópera sátira e jocosa como toda esta trama. A corroborar a sua constante desastrada estratégia, se de facto a tem e não é tudo mais feitio e temperamento, o que será mais perigoso, ficaram ontem os portugueses com um sorriso cínico e trocista quando escutaram da sua voz que se demitirá senão tiver outra opção que não seja aumentar os impostos. Não explica qual é a sua equação, que contas fez, de onde subtrai, onde acrescenta e divide para multiplicar por todos. Sabemos que se for eleito primeiro-ministro será em 2015 e só será hipoteticamente responsável pelo orçamento do ano seguinte! E no próximo ano várias contingências, essencialmente internacionais, poderão alterar por completo todas as contas e equações idealizadas… ou pretenderá rasgar todos os compromissos com a união europeia e ser um outsider – não lhe reconheço tanta ousadia e coragem (ou melhor irresponsabilidade). Todo o país percebeu a “azelhice” e comentou-a durante o dia, como aconteceu na noite das eleições Europeias que começou com o seu candidato aos “saltos” reivindicando uma vitória estrondosa que depois se veio a verificar para todos que foi pífia mas que ainda hoje o António, o Seguro, assume como histórica fazendo uma análise tal qual um treinador de futebol que venceu com um penalti no último minuto a equipa rival e diz aos associados que deu um “ ganda banho-de-bola”. Em tudo isto António, O Costa, remeteu-se ao silêncio escondendo-se uma vez mais nas cordas com o argumento que tudo tem de ser ponderado e é um homem de consciências.

 

Do Costa, desculpem, do António, de quem a maioria dos portugueses e penso que também dos simpatizantes do Partido Socialista, está-se a borrifar se foi leal ou desleal, traidor ou fura-acordos e se preocupam mais com quem poderá ser o seu primeiro-ministro, ficamos a saber que é ponderado porque terá um plano para o país, que também assenta no Estado Social, no crescimento e no emprego e numa sociedade de ideais de esquerda que mais tarde saberemos em que tudo se fundamenta como que numa benevolência magnânima para não nos saturar com muita informação.

O debate, que ficará conhecido como o dos “Antónios” ou do “…isto não se faz António”, resumiu-se á imagem de um combate de boxe, em que um dos pugilistas, desta vez o António, o Seguro, entrou de rompante mostrando estar cheio de energia e vivo, bateu, bateu mas sempre com a mesma mão enquanto António, o Costa, se refugiou ordeiramente nas cordas, no canto menos iluminado esperando que o seu adversário se perdesse no seu próprio folguedo. No final, os treinadores torceram o nariz, limpou o suor da testa, antevendo tempos difíceis e disse: “Olha António…se queres ganhar isto tens que fazer mais….”

 

Teria sido um bom debate nos anos oitenta mas para um congresso da Juventude Socialista mas a idade dos Antónios já não permite estas coisas e o país merece mais. Hoje, como nas longas noites do Festival da Canção das décadas de sessenta e setenta do século, o país vai-se sentar a assistir ao segundo round entre os Antónios, torcendo entre a Madalena Iglésias e a Simone de Oliveira! Desculpem: entre o Seguro e o Costa! Eu cá por mim prefiro o Paulo de Carvalho só por causa do “…E depois do Adeus”, cujos primeiros versos bem podiam ser declamados pelos dois (nenhum parece ter voz para cantar): Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci… - e seria como uma justificação para este medíocre desempenho que nos deram ontem!

 

Os portugueses precisam de mais e melhor para acreditar neste PS que se vai agonizando até às eleições do final do mês, de debate em debate. Cheguem elas rápido e pare a pobre opereta!

 

José Carlos Madeira

 

 

CÓCÓ CAGOU A CANITA OU OS RELATÓRIOS QUE NADA CONCLUEM


O Principe

14.05.13

A história dos relatórios da OCDE, oferecem-nos várias visões e possíveis comentários mas também podem demonstrar que independentemente do governo e a sua postura ideológica de quem está no poder, normalmente contêm posições do agrado dos mesmos.
Não foram apenas dois relatórios que a OCDE elaborou sobre Portugal e na sua maioria apelavam a consensos nacionais e a medidas simpáticas para quem comandava a governação.


Numa visão diferente, há dois anos o PSD classificou o relatório como um fato feito á medida das pretensões de Sócrates e hoje temos o inverso! O que parece á maioria dos portugueses é que estes relatórios acabam por não ter qualquer impacto ou importância, até porque alguns dos seus textos são empíricos, generalistas e até inconclusivos face a alguns elementos conjunturais. É normal o aproveitamento politico por parte de um partido quando lhe é favorável um relatório de um organismo de significativa importância no panorama internacional e a indignação da sua oposição mas o que é conclusivo é que a OCDE não sai nem tem visto a sua imagem de credibilidade reforçada com relatórios que afinal nada concluem! Recordando os mais incautos que esta critica não tem sido só feita em relação a Portugal.

 

Como dizia alguém conhecido esta manhã "quero morrer sem ler um relatório destes", eu já li mais que um e concluí o mesmo que ele, nada acrescenta a uma análise da nossa realidade....como diz o bom alentejano "cocó cagou a canita" (venha o próximo)!

 


José Carlos Madeira

QUANDO O PRESIDENTE PERDE O SEU SENTIDO OU AS JORNADAS DA PRIMAVERA DA PRESIDÊNCIA


O Principe

14.05.13

Há tempos tivemos mais uma frase do Presidente digna de um comentador como o Camilo Lourenço, o José Gomes Ferreira ou do seu discípulo Marques Mendes: Não digam depois que não avisei! 

 

Por Marques Mendes ficámos a saber que convocaria um Conselho de Estado mas quando todos pensamos que era para discutir a situação real do país afinal é para tecer teorias virtuais sobre o nosso futuro colectivo pós-troika! Isto numa ocasião em que a 7.ª avaliação foi encerrada com factos e compromissos pouco esclarecidos e confusos e não se conhece nem se percebe a verdadeira posição de um dos partidos da maioria governativa sobre algumas medidas extraordinárias tão relevantes como o corte nos rendimentos já parcos dos nossos pensionistas. Esta era a altura essencial para ter em Belém um Presidente esclarecido, exigente perante a governação e não um promotor de jornadas de debate bem mais ao estilo de "clubes elitistas pensantes" que em tempos de crise aparecem como cogumelos num bosque transmontano.

Este é um Presidente desastrado e desfasado na gestão do seu papel como principal magistrado da nação, não agradando nem convencendo a esquerda nem a sua direita e muito menos com capacidade de promover consensos e unidade no presente e nem com uma visão em relação ao futuro! 

 

O Conselho de Estado é mais do que um grupo lúdico de soirée que se reúne para dissertar sobre futuros hipotéticos. Há um desfasamento entre o Presidente e o país e a sua imagem de impoluto, de politico imaculado caiu definitivamente, basta observar a sua popularidade e o que a maioria dos portugueses pensa e a forma como o avalia!

Esperemos que alguns dos Conselheiros aproveitem a oportunidade para questionar a acção do próprio Presidente e o presente conseguindo quiçá que um Conselho de Estado não seja uma espécie de Universidade Sénior de Pensantes em prolongamento das já conhecidas e afamadas Universidades de Verão da Juventude da familia politica do Presidente!

 

José Carlos Madeira

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