José Carlos Madeira - se elegeres a sinceridade como teu propósito de vida, manterás sempre livre a tua opinião e a tua mente liberta em cada palavra!

17
Dez 08

Durante o dia enquanto trabalho no meu gabinete vou fazendo um zapping pelas estações de televisão informativa ou pelos fóruns das rádios. Escuto quase sempre o mesmo, este País precisa de mudar...mudar de mentalidades, de políticos, de se personalizar em movimentos fora dos partidos, o Governo é ambíguo ( no mínimo... ) nas suas politicas sociais e financeiras. O Povo diz que é preciso mudar mas na hora de o fazer vota e entusiasma-se por mais do mesmo, pelas mesmas personagens e seus amigos, os mesmos tiques, os mesmos slogans, as mesmas gravatas. Estou certo que muito da estagnação e atraso deste País se deve á sua classe politica que nem se dá ao trabalho de se reinventar, basta manter-se á tona e atenta para que esteja sempre perto do poder - assim o é desde  o Sec. XVIII.

Na minha passagem por uma organização partidária juvenil, ouvi o comentário de um politico local já reformado - é este o povo que temos! Esta frase foi dita numa pequena sala enquanto se acompanhava uma noite eleitoral que foi tudo menos vitoriosa. A esse politico, que podemos encontrar perfis idênticos na nossa literatura desde Camilo a Eça, não foi preciso analisar, deixar passar a ressaca eleitoral e saber onde se falhou, porque o povo não escolheu a nossa opção, não entendeu a mensagem, " na sua avisada" sabedoria estava feito o diagnóstico foi o Povo que coitadito não percebe nada disto e ainda por cima vota.

Há alguns dias atrás visitei um cliente cuja empresa se encontra em dificuldades, entre muitas lamúrias e culpas á situação económica, ao governo, queixou-se da não compreensão de alguns dos seus trabalhadores pelos seus problemas e algumas das suas atitudes e no final rematou a conversa com - que quer que faça são estes os trabalhadores que tenho! Lembrei-me do episódio anterior e não deixei de lançar o meu sorriso irónico e trocista. Para este empresário já com várias décadas no mercado o problema é sempre o mesmo, os trabalhadores e a fiscalidade, a conjuntura económica. Como o politico também resume as culpas ás bases tanto laborais, como sociais. Nem sequer nunca pensou  em estratégias e alterar a sua gestão para que se tornasse mais competitivo, mais robusto a situações conjunturais. Não! A culpa e a falha é por causa dos outros!

 

 

A culpa dos outros é a verdadeira  corrente filosófica portuguesa. Desperdiçámos o momento dos Descobrimentos, tornando-nos meros mercadores e navegadores por culpa dos Ingleses que foram para África e para a Índia, á nossa boleia, por causa dos Holandeses, que com as suas feitorias tomavam conta dos grandes negócios, as naus chegavam a Lisboa carregadas mas algumas cidades nórdicas tão distantes cresciam em riqueza. De quem foi a culpa? Não de nenhum Rei ou seu pensante, foi do povo que só sabia remar, içar velas, misturarem-se com osindígenas, enfim uns promíscuos e apenas braçais!

 

Vejamos o actual momento nacional, onde poderemos encontrar esta corrente filosófica. Comecemos pelo poder e pela politica da educação - os professores têm que ser avaliados, concordo! - mas não há consenso, nem estratégia para o mesmo! De quem é a culpa (?) - dos outros, dos professores ( as bases ) para o Governo que conseguiu elaborar um dos métodos mais complexos e sem sentido conhecidos que deverá constar nos manuais da "complicação" da história , para os sindicatos a culpa também não é quererem impedir a todo o custo qualquer tipo de avaliação de uma classe que não estava habituada a ser avaliada como a maior parte da função publica - é dos outros ( do ministério ). E se ambos simplificassem as suas atitudes sem pensarem nas eleições aí á porta? Sussurraram-me que para o ano há eleições legislativas e também em algumas centrais sindicais - não posso crer!!!  Aconselho a analisarem o sistema de avaliação de alguns dos nossos amigos nórdicos que no passado nos " passaram a perna " e poderão copiar alguns métodos menos persecutórios para os professores, menos "complicados", e sem complexos de avaliação. Podíamos continuar a analisar o poder, o Governo, com os médicos, os juízes, os militares, os jovens, as empresas. O Governo não tem culpa pelo descontentamento , a culpa é dos outros. O governo estava a apresentar o Orçamento dizendo que era um documento racional, responsável, bem preparado e realista mas nem uma semana depois chega-se á conclusão que muito vai ter que ser rectificado e não cumprido ou atingido, a culpa não foi por falta de analise, ponderação. A culpa é dos outros - da conjuntura internacional, da crise imobiliária americana, da exposição ao mercado financeiro global, das mudanças constantes diárias...não é culpa da falta de previsão, da falta de robustez da economia regida por medidas fora de tempo. Hoje o ministro da finanças vem avisar os bancos que lhes vai fechar a torneira se não fizerem chegar o dinheiro ás empresas, mais um exemplo da implementação filosófica da culpa dos outros - a culpa de as empresas não terem dinheiro devido a algumas politicas financeiras e fiscais desfasadas é da banca, dos outros ! E da mesma banca não ter sido devidamente fiscalizada pelas entidades reguladoras também foi dos outros - neste caso de uns banqueiros e gestores financeiros, gente esperta e mafiosa que leva os papeis e os computadores para casa e esconde -os debaixo da cama ou até nos colchões. Eu que pensei sempre que as entidades reguladoras deviam ter uma função de analise, pesquisa constante e de averiguação dos mais elementares métodos de gestão. Mas não a culpa é só desta gente, quer dizer dos outros que até são capazes de fazerem um banco num PC portátil e esconder documentação numa cuba de vinho - o mais chique possível! Um último exemplo sobre a corrente filosófica "a culpa dos outros" e o governo -sabiam que José Sócrates não cumpriu com a promessa eleitoral de não aumentar os impostos e a carga fiscal sobre as empresas por causa da....- já perceberam ; claro da culpa dos outros, neste caso dos governos anteriores e porque também tinham escondido e levado para casa a contabilidade nacional e guardado em cubas de vinho, colchões - nada de novo! É que antes dele ninguém publicava contas neste reino, nem os taberneiros!

 

Deixemos o governo e vamos até á oposição. Comecemos pelo sempre contributivo partido da oposição para as parangonas dos jornais, tipo folhetim de Camilo, mas para melhor! É que nem a capacidade inventiva deste era capaz de imaginar que uma fatia da oposição politica estivesse sujeita a todas as semanas que alguns dos seus mais distintos membros fossem noticia dia sim, dia sim. Não porque pertencem a administrações de bancos que afinal só são geridos por um homem. Aliás todo o país deve-se curvar sobre o exemplo do digníssimo ex-administrador de um banco que sozinho, com uma tão grande capacidade de trabalho conseguiu além de gerir o banco, ludibriar todo um sistema financeiro, criar bancos em Cabo Verde, sem o apoio de ninguém, mesmo de ninguém! Quer dizer...talvez da secretária que lhe passava algumas chamadas para não perder tanto tempo com o auscultador na orelha. A culpa de tudo é da comunicação social - bisbilhoteiros! A Dra. Manuela Ferreira Leite não tem sossego porquê? Por culpa dos outros que não a deixam liderar em paz e vão para os media comentar - digamos que é o partido com mais comentadores - anda Pacheco(!), diria a saudosa Hermínia Silva. Mas a coerência é uma das grandes virtudes do PSD. Vejamos a mesma linha filosófica da culpa dos outros, levou á demissão de Filipe Menezes, que estava sempre sobre fogo dos "declamadores", "debitadores"  e "vendedeiros" de opinião internos e estrategas nacionais de relevo. Antes, Marques Mendes também se demitiu amuado pelas constantes criticasdos outros. Mas já antes o Dr. Santana Lopes tinha perdido uma eleições devido á interpretação exaustiva da corrente filosófica da culpa dos outros, pelos constantes ataques e deserções internas. Assim a desconcertante acção de oposição e trabalho do PSD desde as ultimas eleições está explicado, não foi por em quatro anos ter pelo menos três presidentes diferentes com estratégias e propostas opostas e ninguém se entender!

 

A culpa dos outros, também não deixa o Dr. Paulo Portas e o seu PP em sossego - não se consegue rejuvenescer, reinventar-se nos tempos actuais, passar a mensagem ideológica que o caracterizou no passado, descolar da boleia dos partidos do poder, porque andam para aí uns meninos da linha que se sentem descontentes e sem pachorras para andarem em mais feiras e tasquinhas a falar com o povo e querem-se ir embora cansados, Sim, uma vez mais a culpa é dos outros, porque todos sabemos e a história nos diz que que este PP é verdadeiramente um partido equidistante dos partidos do centro-poder.

 

A culpa dos outros, também surge na esquerda do parlamento e é fácil de nos recordarmos, dos momentos tão inéditos e inovadores no discurso do líder do PCP, da culpa de tudo e até das intempéries, da chuva e da neve, do Tsunami, dos últimos terramotos, do "grande latifundiário", "do grande capital", que todos nós já conhecemos da velha cassete. Mas também surge no BE -não, não é nenhuma inicial de um banco  espanhol, esses capitalistas sem escrúpulos, banqueiros e amigalhaços também são parte do discurso da culpa para todos os momentos.

 

Como diz o impagável e sempre atento Eng.º Belmiro de Azevedo, "ninguém põe um semáforo vermelho a esta gente"  e a todo este sistema e se parte para uma renovação. Com piada dizia a um amigo um dia destes, fala-se tanto em formação e qualificação profissional continua dos trabalhadores, há tantas entidades certificadoras de qualidade,  mas tudo só mudará quando o mesmo conceito for introduzido na politica. Sonharei um dia ver num jornal publicado um anuncio de abertura de vagas para formação profissional e qualidade politica.

 

Espero no final dos meus dias me sentar á lareira na cadeira de baloiço da minha mãe e contar aos meus netos uma história de um "Rei Nu e do seu País de Inventar", começando assim desta forma - "Era uma vez, em tempos muito longínquos, num reino muito distante..."

 

Desculpem alguns este artigo mas a culpa não é minha é dos outros - enervei-me!

 

José Carlos Madeira

 

 

Nota : Para os mais incautos ou menos experientes em humor pode-se distribuir uma edição deste texto com anotações, nas partes irónicas!

publicado por O Principe às 13:00
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