José Carlos Madeira - se elegeres a sinceridade como teu propósito de vida, manterás sempre livre a tua opinião e a tua mente liberta em cada palavra!

22
Nov 12

Carta a aberta a Alberto Gonçalves “o sociólogo”

O Juízo final numa página da “Sábado”

 

A Sábado, revista que tenho como de referência nas minhas leituras semanais, tem na sua última página a publicação semanal de um artigo de opinião de Alberto Gonçalves – sociólogo, que por bastas vezes faz com que termine uma leitura até aí agradável, cum travo azedo. Semana após semana tem-se vindo acentuar essa sensação, optando por uma primeira tentativa de ignorar aquela última página! A mesma não passa de uma dissertação sobre vários temas da atualidade cujos comentários têm pouco ou nada de análise social mas muito de pavoneamento interpretativo de alguns temas. Assistimos atualmente em catadupa ao surgimento de comentadores de todos os quadrantes, uns encomendados, outros para alimentar os seus egos insuflados e majorados socialmente por uma posição ou por mera conveniência de aparecer. Quem comenta e publica artigos de opinião deve também ter o discernimento que a sua opinião é falível resume-se á sua própria visão do mundo, sempre caracterizada pela sua formação mas acima de tudo pela elite social em que se insere!

 Alberto Gonçalves dá-nos todas as semanas uma crónica intitulada “Juízo Final” – cujo titulo já nos remete para a existência de um ego razoável, de quem aparentemente transmite uma sapiência iluminada e a coberto de um titulo de sociólogo disserta com a certeza de que nos está a alertar para uma sociedade que só existe em si e no seu meio. Depois de repensar o que fazer da minha revista semanal, se ignorar o juízo final da última página ou como um leitor e cidadão interventivo tentar que outra visão seja dada de forma critica ao que eu chamo o desbaratar de uma página. O último artigo composto por dois subtítulos “A pobreza Franciscana parte II” e “Atenas pelo telefone”, leva-me a escrever abertamente sobre e para o cronista – o seu tom o modo desajeitado, numa procura de com as suas linhas sublinhar uma postura intelectual e dar voz a uma sociedade que não existe, ao não ser dentro de si e tentar interpreta-la por um prisma tendencioso e que se exigiria mais a alguém que se apresenta como sociólogo.

Por honestidade intelectual esclareço que não pertenço ao Bloco de Esquerda, sendo a minha família ideológica diametralmente oposta. Sou um cidadão que de diversas formas interveio na vida política até pelo partido que hoje é maioritário na governação atual e em grande parte da sua atuação não me revejo e que tenho por “erros colossais” que os pagaremos num futuro imediato e que tornará um país quase milenar cada vez mais dependente e periférico social, financeiro e culturalmente. Esta minha opinião de cidadão comum não é diferente de muitos ilustres que no mesmo quadrante politico tiveram posições e cargos de relevo, sendo bem escusado citar nomes, basta um zapping pelas estações de televisão de informação desde das nove horas da noite!

Em “A pobreza Franciscana parte II”, Alberto Gonçalves, vem atacar a posição e frases de dirigentes d o Bloco de Esquerda com o seu já habitual, confrangedor e antiquado estilo argumentário trotskista , atacando Isabel Jonet! Faz a comparação pela beatitude entre aquela e os fins da organização partidária. Como escrevo no meu blog Mordidela, em http://mordidela.blogs.sapo.pt/, e no post “Há um tempo e um modo” não é questionável o trabalho do Banco Alimentar e o apoio que todos devemos dar á sua atividade e nos tempos em que vivemos ninguém é prescindível muito menos por inábeis e pouco clarividentes palavras! No entanto, o que Alberto Gonçalves não escreve é que não foi o Bloco de Esquerda, nem outros críticos que surgiram, que tornaram as palavras da Presidente do Banco Alimentar num acontecimento político, foram as mesmas e o seu teor bem como o relevo social de quem as proferiu! As palavras de Isabel Jonet tinham uma conexão politica evidente e de aceitação implícita pela opção da austeridade e governação vigente! A notoriedade não é uma moeda de uma só face, também traz uma maior ressonância às palavras e aos atos! Se fosse uma mera cidadã voluntária e participativa do Banco Alimentar com toda a certeza não estava como convidada naquele programa rodeada por comentadores reconhecidamente com opinião politica. A todos é exigível distinguir a sua ação enquanto representante e responsável de uma obra notável de uma Isabel Jonet que não hesitou publicamente manifestar a sua opinião que teve um contexto evidente político e que deixou que algumas fações extremistas as utilizassem, também disparatadamente, chegando ao limite insensato de se pedir um bloqueio estupido e ignorante aos donativos á sua instituição que implicaria o agravamento da situação de muitas famílias que vêm o apoio das organizações humanitárias como o único meio de sobrevivência! Isabel Jonet e os seus defensores devem ter a clarividência de reconhecer que foi inábil a sua intervenção pública e que deve assumir o erro que não ajudou a sua obra meritória, num tempo em que tudo ganha uma dimensão perigosa e muitas vezes desfocada. Pior que os ataques às suas palavras foi a sua defesa por alguns, por vezes desfasa e patética não compreendendo e aceitando que o primeiro erro foi da autora e o segundo de quem alimentou a discussão com argumentos débeis. O silêncio quase sempre é uma arma eficaz para a maledicência ou para o humor jocoso inapropriado. Se o Bloco de Esquerda é tão malévolo para o cronista porquê então ampliar as tiradas jocosas trotskistas que a todos já enfatizam?

 

Parece-me mais grave quando Alberto Gonçalves, o sociólogo, em “Atenas pelo telefone”, nos convence da conversa telefónica de um amigo que lhe relata da sua chegada a Atenas. Todos sabemos que a capital grega vive momentos de muita agitação e tumultos principalmente em dias de greve geral, o que não devia ter sido o caso, pois na última não havia aeroporto a funcionar, táxis e transportes a circular! A leitura da sua crónica leva-nos a questionar se o seu amigo baralhado por um qualquer jet-lag imprevisto, não terá aterrado em Damasco sem se dar conta! Mas tirando a enfase da crónica do amigo amedrontado parece que o cronista nos pretende garantir que as manifestações em Atenas não são feitas por desempregados, estudantes, idosos e uma ampla e transversal base social que desesperada se vê sem meios para resistir a uma austeridade que favorece ilusoriamente supostos mercados financeiros e uma moeda virtual chamada Euro e que se esquecem de um povo que sofre e não os seus dirigentes, que tem os seus idosos e crianças a viverem abaixo de alguns limites civilizacionais e o desemprego jovem ultrapassou os 55% - sim leu bem e os números são oficiais! Lá como cá, há o aproveitamento de uma parte da classe politica para relativizar as greves, as manifestações, relativizando que tudo não passa de uma organização malévola de bandos “de guerrilheiros treinados para espalhar a destruição e o caos”. Interessante a ressalva da orientação ideológica de esquerda do amigo viajante! Estive em Atenas vi gente a manifestar-se em frente ao parlamento já em 2010, ouvi palavras de ordem e li cartazes em inglês tosco para os europeus do outro lado do mediterrâneo escutarem, soube de radicais e extremistas que alguns foram presos mas em cada grego não há um potencial terrorista. Os gregos, que Fernando Ulrich diz estarem vivos, sentem o que Alberto Carvalho e o amigo de esquerda do telefone e alguns senhores não lhes interessa, ou não lhes é relevante para a crónica, é o desespero porque a sua economia está morta, o estado não funciona e na sua maioria deixou de poder fazer face às despesas mais básicas do dia-a-dia! O desespero coletivo como deve reconhecer não o cronista mas o sociólogo é o embrião para uma convulsão social violenta que muitas vezes na história fez cair o poder na rua e mais tarde em mãos pouco desejáveis. De uma coisa poderá ter a certeza a Europa não será a mesma e todos hoje somos governados por uma ditadura a que chamam de “mercados financeiros” que alguém deixou colapsar e e como todo o bom ditador desregulado minou um continente inteiro e fé numa economia comum.

Alguns pretensiosos fazedores de opinião ou escribas eruditos, contentes e satisfeitos com a sua vida não suportam ouvir palavras como descontentamento, porque temem que a vida deixe de ser como conhecem e seja mais que uma feira de vaidades ao sol de uma esplanada á beira-rio e o seu sossego seja truncado pela voz de quem se quer fazer ouvir – deixam transparecer o desejo que os “pequeninos confrontos suscitados pela aprovação do OE…”como refere, sejam apenas isso obra de pequeninos guerrilheiros ridículos e que dá jeito alguns para se esquecerem dos milhares que estiveram na rua a fazerem-se ouvir. Grave sãos as palavras do cronista sociólogo sobre uma hipotética sede de violência - se fossem proferidas por alguns quadrantes políticos de extrema-esquerda, e as rotulasse de terroristas eu o apoiaria – “Sobretudo quando certas luminárias das forças de segurança parecem empenhadas a estimular o avesso da dita e quando delinquentes com voz nos media e até no parlamento se consomem na impaciência de arrasar o regime e num ápice, o País!” Ficámos a saber que a imprensa e os media (do qual também faz parte ao escrever numa revista) dão voz a delinquentes e que os mesmos chegam até ao parlamento o que numa democracia é grave! Há delinquentes no parlamento que dão eco á voz de outros delinquentes que têm amigos nos media. Senão fosse grave e pesada a afirmação parecia-me a teoria da conspiração reconstruída num sketch dos Gatos fedorentos”. È urgente para uma melhor informação dos seus leitores que esclareça quem são os delinquentes no parlamento que dão voz a outros delinquentes porque gente dessa não se quer em tal lugar e quem profere tão convicta e forte afirmação deve também dizer os seus nomes assumidamente!

Espero do cronista, se alguma vez tiver tempo e vontade de ler este texto, de um simples homem que se identifica, não se esconde a coberto de um pseudónimo, que exerce a sua cidadania consciente, que a receba como uma opinião democrática, uma visão diferente da sua e independente! Quem se quer notável pela prática de uma atividade essencialmente politica como é o seu tipo de escrita e de crónica tem de certeza uma postura de aceitar a crítica, o contrário e frontalidade!

 A última página da Sábado é afinal e apenas mais uma página, que poderia ser a primeira ou uma qualquer das outras!

 

José Carlos Madeira

publicado por O Principe às 22:29
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Porque é importante esclarecer:

Este é um post de 2012!! Estranhamente este ano (2015) mereceu dois comentários negativos, com insultos à mistura, que no mínimo é deplorável...depois de inúmeros favoráveis ao tempo da sua publicação. Ao longo da existência do blog a relevância das criticas foi sempre importante sejam positivas ou negativas. Intolerável é o insulto! Admitir que uns têm direito ao humor, à jocosidade, à ironia e à irreverência e aos outros é vedada apenas porque sim e que é quase um crime publico contrariar e criticar algumas mentes ou autores públicos; um sinal de intolerância e incomodidade perante a liberdade e a manifestação do outro, mais característicos de outros tempos cinzentos.
Esclarecer, que nunca me escondo atrás de um pseudónimo ou de um nome, assumindo sempre a minha opinião e as suas consequências. Não escondo a mão atrás do arbusto para atirar a pedra! Este e os outros blogs, em que escrevo, têm sido uma experiência fantástica permitindo inclusive construir amizades, trocar opiniões, debater com entusiasmo e descobrir gente e almas boas, sobretudo saudáveis.
A demonstrar que não me escondo, na ocasião (em 2012) antes de publicar este texto enviei-o directamente para a revista e para o Alberto Gonçalves e reproduzo o referido email:
(...)
"Apenas pretendo transmitir uma opinião independente, diferente e contrária a que o autor publica nos dois textos.
Em nenhuma parte do texto tenho a intenção de ofender ou denegrir,apenas dar uma opinião diferente e colocar algumas interrogações à mesma crónica apesar de alguma possível irreverência característica da forma como escrevo!
Uma das particularidades que sinto na Sábado é a contraposição de ideias e uma dinâmica de opiniões divergentes, apesar da própria e justificada linha editorial, que a faz sobressair e resistir no panorama português.
Sou um defensor que a cidadania também se faz na intervenção publica nos órgãos de informação e com o acesso à discussão com os intervenientes, como os cronistas, os editores, pelos leitores com civilidade e dentro de princípios de respeito à diferença.
Os meus respeitosos cumprimentos e não deixo de me despedir sem deixar um cumprimento a Alberto Gonçalves."

Acrescento, que continuei a ler Alberto Gonçalves, sem pudor, tendo concordado,bastas vezes com muitos dos seus textos. Continuarei a lê-lo, a reflectir, a concordar e a discordar de acordo com a minha liberdade. Da mesma forma que continuarei a escrever, a publicar e essencialmente a partilhar com todos os outros, ideias, opiniões, com ou sem irreverência.
Vir em 2015 (final), criticar e insultar, desenquadrar e distorcer um texto de 2012 é estranho!

Recordo o filósofo Diogenes, O Cinico:
O insulto desonra quem o profere não quem o recebe.

José Carlos Madeira


O Principe a 13 de Janeiro de 2016 às 21:48

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