José Carlos Madeira - se elegeres a sinceridade como teu propósito de vida, manterás sempre livre a tua opinião e a tua mente liberta em cada palavra!

09
Nov 12

HÁ UM TEMPO E UM MODO

 

Há momentos em que todas as intervenções pequenas, desajeitadas e deslocadas tomam proporções maiores, que em outros passariam completamente despercebidas e até receberiam um sorriso ou uma gargalhada jocosa! Tem sido o caso de algumas figuras da política, da sociedade e das finanças nos últimos tempos!

Ninguém se exaltaria contra Fernando Ulrich, quando no seu tom habitual de popstar ao género financeiro, um misto confuso de ligeireza e arrogância intelectual, quando disse que o povo aguenta mais austeridade com uma frase que daria brado nas t´shirts dos adolescentes – “ai aguenta, aguenta, se aguenta…”; não fosse este o tempo em que os bancos são refinanciados a 0.75% e colocam o mesmo dinheiro na economia a juros muito superiores, não seriam graves os seus comentários constantes. Quando milhares de clientes do seu banco ficam sem as suas casas por não conseguirem liquidar as correspondentes mensalidades face á perda de rendimentos e o número de famílias desempregadas sem qualquer apoio do estado não fosse colossal e dramático, ninguém tinha perdido tanto tempo com um simples disparate dito talvez num momento de empolgamento e exaltação já habitual do seu ego! Não era de forma nenhuma notícia sequer senão fosse dito por alguém que lida diariamente com índices concretos e gere uma instituição financeira que não compreende que mais austeridade trará uma recessão sem paralelo na nossa economia e que haverá uma quebra mais acentuada no consumo. Sem ele a economia não mexe, não há crescimento, a desigualdade entre os ricos e a classe média (não falo já dos pobres) será enorme! Quem movimenta a economia de um país com as nossas características é o dinamismo da classe intermédia que começou a levantar as poupanças que estavam paradas no seu banco para fazer face a despesas correntes e se encontra depressiva e num colete-de-forças fiscal. Quando Fernando Ulrich rematou a sua disparatada intervenção com uma alusão ao povo grego e às medidas de austeridade dizendo – e os gregos estão vivos… - colocou no espirito coletivo o medo de chegarmos ao fim da linha social e da estabilidade, que é o que os gregos representam atualmente para a Europa ou que os nossos dirigentes políticos e financeiros pensam que o povo aguentará sobreviver naquele limite. Não disse é que os gregos estão vivos mas o seu país está morto, financeiramente paralisado, com uma taxa de desemprego entre os mais jovens de 55% que pensaríamos irreal há uns anos, as instituições paralisadas, os consensos políticos são instáveis e insustentáveis no tempo e socialmente um vulcão que pode influenciar outras paragens em que o poder rebentará em mãos indesejáveis. Nós caminhamos para o descalabro de uma economia da beira de estrada, paralela e de sobrevivência, reconhecida em países em vias de desenvolvimento em que me habituei a ver nas minhas viagens por destinos mais exóticos. Vejo a percorrer as nossas estradas, mais gente a vender na rua, alguns com uma pequena bacia com o que colhem de minguos jardins que recentemente serviam para outras sementes. Isto não é uma narrativa de Milan Kundera ou a descrição da destruição de um tipo de vida após a segunda guerra em alguns estados a leste da Europa, somos nós em pleno século XXI.

 

Quando Isabel Jonet, Presidente do Banco Alimentar num canal televisão de informação, disserta sobre o hábito de comer bifes e a crise como resultado de se comerem muitos sem se poder, é grave quando cada vez há mais famílias da classe média que recorrem a instituições como a sua para se alimentarem e que começam a sentir dificuldades e a não terem meios para acorrerem a tantas solicitações. Quando num pretensiosismo deplorável se refere á educação das crianças em lavar os dentes com copo na mão parece que está a ensinar a um povo nos confins da Amazónia a racionar o pouco de água potável que lhes é fornecida e nunca tiveram acesso a uma torneira; não seria grave se este não fosse o tempo que muitas famílias que recorrem ao apoio de instituições de solidariedade, não conseguem fazer face às despesas mínimas correntes do lar e vêm cortados os fornecimentos da água e a luz.

Isabel, sabe que esta crise e austeridade não se deve aos bifes que a classe média consumiu nem muito menos pela água que desperdiçaram. Podemos admitir e compreender o que quis dizer, utilizando figuras de retórica mas este não é o tempo e o modo de lições tipo das senhoras da quermesse. Os bifes não devem ser vistos como um luxo mas até como um direito a qualquer um de integrar na sua alimentação e a água como um bem essencial acessível a todos, seja qua for a sua situação atual económica ou social. A instituição Banco Alimentar mereceu o nosso reconhecimento, cresceu com a simpatia do povo, com adesão massiva de voluntários por uma causa e que não pode ser colocada em questão por uma inabilidade de uma só pessoa! É tão essencial esta instituição neste momento como todas as outras, que não podemos descrer na sua atividade e liderança. O Banco Alimentar é essencial por tudo o que criou, a Isabel Jonet só por si não!

Saberiam a maior parte dos portugueses quem é senão fosse o Banco Alimentar que lhe proporcionou prémios e reconhecimento, modelo de instituição não criada por nós e com muitas congéneres a nível mundial. Relembre-se que Isabel Jonet tem um cargo internacional nestas instituições o que deveria tornar todas as suas intervenções mais pensadas e ponderadas. Porque este não é o tempo também de dispensar ninguém!

 

A austeridade poderia começar nestes e em outros exemplos pelo uso das palavras, do exaltar de egos e sobrancerias. Neste momento em Portugal há excesso de comentadores e de vaidades porque há um tempo e um modo para tudo!

 

Também este não é o tempo de um Presidente da Republica em que toda uma nação espera uma presença ativa, uma atitude interventiva, vigilante, que nos transmita uma réstia de segurança e esperança na salvaguarda de direitos mínimos adquiridos em quase quatro décadas de democracia, se mantenha silencioso, numa hibernação despropositada, refugiado nas paredes douradas de um palácio recebendo convidados qual mestre-de-cerimónias, deixando passar uma ténue e suspeita imagem do avozinho reconciliador que se abstém numa família desavinda! Também não é o modo de reaparecer na inauguração de um hotel de luxo apressando-se a dizer que ninguém o pressionará a enviar o documento que regerá e influenciará as nossas vidas para o Tribunal Constitucional, ficando em alguns espíritos a interrogação senão o é ao não o enviar a propósito de uma estabilidade politica irreal e cada vez mais frágil num um país preste a rebentar socialmente e com uma economia em vias de um estado comatoso!


 

Há um tempo e um modo!

 

 

José Carlos Madeira

publicado por O Principe às 01:19
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