José Carlos Madeira - se elegeres a sinceridade como teu propósito de vida, manterás sempre livre a tua opinião e a tua mente liberta em cada palavra!

09
Jul 12

 

Doutores, Engenheiros e Aprendizes

 

 

Parte importante do meu tempo dedico à educação dos nossos filhos, realçando a força de valores importantes, como a educação, o esforço, a dedicação a um objetivo, a abnegação, o interesse pelo conhecimento e a descoberta, entre outros. Tento contrariar a ideia de facilitismo que grassa em algumas gerações anteriores em que a notoriedade fácil e barata sobrepõe-se ao mérito!

 

Eles estão expostos a exemplos perigosos e atuais de quem atingiu notoriedade porque se deixou filmar dentro de uma casa com outros idênticos, tal como uma experiência de observação antropológica, despertando o desejo perverso de voyeurismo da sociedade e passado algum tempo não sabe o que fazer da sua vida e volta ao anonimato após ter sido mastigado e cuspido como uma pastilha elástica – chamo-lhe o fenómeno “Shwinger-gum person” que se verifica não só neste caso mas em muitos outros em diferentes meios.

Durante os nossos jantares falo-lhes das lutas associativas e ideológicas que travei na minha juventude, na passagem por uma das jotas politicas e ter-me mantido sempre fiel a princípios e vertical, não me deixando engolir nem ceder a minha opinião por cargos, lobbies ou favores. A própria evolução da nossa espécie atesta que o homem quer-se na vertical! Batalho para que se apliquem nos estudos, se entreguem na sua formação, se dediquem a um objetivo! Uma das características da nossa conversa face à diversidade de personalidades que tenho à minha mesa, é fazer sentir que as nossas capacidades são todas diferentes e que uma sociedade não é formada só por licenciados, doutores e engenheiros…

Uma sociedade justa e equilibrada é aquela que é formada pela diversidade de géneros, opiniões, credos, actividades, níveis diferentes de desempenho, pelo confronto direto e constante de tendências dentro de princípios de civilidade e tolerância. É tão importante a existência do economista, como a do artista! Um mau economista pode levar-nos á falência, a tomar uma má decisão nas nossas vidas, um bom artista seja qual o seu género traz-nos a capacidade de nos sentirmos Seres Criadores, do prazer, de podermos disfrutar da plenitude dos nossos sentidos num só poema, numa só música, na mais simples tela...O importante é o individuo! A sua realização, o contributo que dá para a melhoria de vida dos que o rodeiam, a sua capacidade de criar e deixar impressa a sua marca na família, no bairro em que vive ou na empresa e nunca o título que coloca antes do seu nome de registo e de batismo.

 

A minha geração foi a responsável pelo amadurecimento da democracia, hoje temos políticos criados nos movimentos das mais diferentes juventudes partidárias mas ao mesmo tempo criámos e incentivámos o “lobismo”, o sectarismo, o novo-riquismo, construímos e valorizámos uma burguesia de vaidades, de títulos e de aparências. Recordo uma situação caricata passada na política – numa assembleia municipal durante o período aberto aos munícipes, um cidadão na sua simplicidade dirige-se ao seu presidente dizendo “O senhor….”- de imediato o autarca então muito conhecido pelo seu temperamento e atitudes, no seu característico tom interrompe e diz: - faça o favor de me tratar com o respeito que mereço, senhor não! Senhor doutor fulano tal…!

Já nos aconteceu o mesmo que aquele simples munícipe. Profissionalmente ao longo do meu percurso assisti às situações mais caricatas desde alguém que ao apresentar-se para marcar uma simples reunião ou entrevista realça o “doutor” e o “engenheiro” antes do nome, até a uma situação numas jornadas anuais promovidas por uma grande empresa quando o interveniente debatia o discurso de abertura do palestrante convidado e se lhe referia com o primeiro e último nome, o visado sentado na mesa de honra murmurava audivelmente ao mesmo tempo: Doutor..!!

 

Somos uma sociedade de doutores e engenheiros, e impregnamo-la com o vício da imagem e do título. O importante não é a dedicação, o mérito, o conhecimento, o nosso desempenho mas sim o título. Somos o país da Europa que mais cursos superiores criou no menor espaço de tempo e os nossos responsáveis permitiram o seu licenciamento não se preocupando com o futuro curricular e profissional daqueles que os frequentariam. Todos conhecemos cursos cujas médias e números de alunos deram que falar e sobejam exemplos de jovens que não seguiram as suas vocações por impossibilidade de obtenção de médias e que se limitaram o seu futuro a opções de recurso sem aplicabilidade nas suas vidas apenas para obterem um título que lhes permita facilitar a sua entrada no mercado de trabalho e na sociedade - Diz-me qual é o teu título e depois o que sabes…

 

Além de termos criado a sociedade dos doutores e engenheiros, inventámos a dos Aprendizes que sobrevive entre o sistema vigente e o chico-espertismo oportunista! Vestem-se como os yuppies americanos no final dos anos oitenta, punhos brancos, fatos de marcas ostensivas, passeiam-se em carros de boa pinta, habitam em condominios restritos nas zonas “in” e adquirem montes alentejanos para o fim-de-semana para desfrutar com os amigos, falam com conhecimento empírico e tornam eloquente o discurso do senso comum, sobrevivem à tona entre o sim e o não -o “ni” conveniente -e para acabar o quadro perfeito da sua personagem vão á busca do titulo de instrução que lhes escapou, com a facilidade dos contactos e favores que angariaram – não me digas quem és, diz-me quem conheces! Assim, para entretimento jornalístico vamos conhecendo percursos académicos que afinal não foram, currículos cortados e cozidos á medida da ocasião e da oportunidade. Como podemos incentivar os nossos jovens a valorizarem-se com exemplos públicos do desenrasque, do facilitismo e do apadrinhamento? Que gerações queremos para o futuro? A das Novas Oportunidades, cujos meios de avaliação e de certificação de conhecimentos desconfio e discordei em alguns pontos, ou a das Velhas Oportunidades baseada nos Aprendizes do chico-espertismo?

 

O sistema a que chamo de “Velhas Oportunidades”, beneficiou do Big-Bang das instituições de ensino superior em Portugal, com evidente vantagem financeira para o sistema! No entanto, não contribuiu na maioria dos casos para uma melhor qualidade dos nossos quadros empresariais, dirigentes políticos entre outros. Resistem algumas instituições que mantiveram a sua exigência científica e curricular que permitiram formar “cérebros” em várias áreas muitos dos quais requeridos por vários sectores do estrangeiro e outros que para continuarem a sua valorização emigraram.

 

Sinto-me desconfortável em ser governado por uma geração que dá primazia á imagem, á influência! Sou desconfiado quando algumas destas personagens pertencem ou são convidados para os conselhos de administração de empresas de referência. Sinto-me incomodado quando um destes protagonistas sobe para cargos governativos e haja a necessidade de o substituir por outro que desceu. Dizia com ironia um cronista sobre as redes sociais que Portugal descobriu um novo termo “ o amigar” mas eu não concordo, porque sempre o sistema de notoriedade instituído neste país há duas décadas foi o “amiguismo”!

 

O mérito não se obtém num título e faço votos para que alguns dos meus filhos não o tenham só pela necessidade social de o obterem e não serem marginalizados. Porque tenho a felicidade de possuírem personalidades e interesses que poderão singrar e dar um contributo positivo como técnicos em áreas tecnológicas, na ação humanitária e até no desporto e não se ficarem por aprendizes.

 

Hoje, é justo e normal que quem terminou o seu curso universitário cumprindo todas as regras ponha em causa e interrogue a instituição que frequentou preocupado com o valor curricular das suas licenciaturas no mercado de trabalho! Entregaram-se durante anos com sacrifícios vários, inclusive muitos com o esforço financeiro e endividamento de toda a família quando são conhecidas e publicas situações que outros obtiveram o mesmo com base na notoriedade social e politica e no “amiguismo facilitista”!

 

Um dos empresários de referência e que admiro em Portugal, pela sua inteligência empresarial, empreendedorismo, cultura industrial e comercial , que em plena crise tem sabido manter e até criado novos postos de trabalho, não teve a oportunidade sequer de completar os seus cursos secundários, por razões familiares. Começou ao lado do seu pai numa via dura como carpinteiro da construção civil mas entusiasmado por um sonho e compenetrado em o tornar realidade! Conseguiu atualmente estender a sua atividade a vários pontos do planeta e em cada dia preocupa-se em tornar mais forte e menos permeável o seu grupo às intempéries dos mercados globais e financeiros, aos favores da política, formando os seus quadros com o lema que só com esforço diário e dedicação se obtêm resultados e que os títulos não são a garantia de uma posição de privilégio mas sim o desempenho! Este é um dos exemplo que dou aos meus filhos e peço-lhes que para além de terminarem os seus estudos e formação curricular que criem dentro de si o carater de empenho, do desafio, do esforço, da dedicação! Será que resistirão ao “facilistismo” e ao “amiguismo”?

 

Enquanto estive na Dinamarca num grupo industrial líder mundial no seu sector, o CEO da companhia era apenas tratado por Klaüs.. e trabalhava num open-space conjuntamente com todos os seus quadros das oito da manhã às quatro da tarde e almoçavana sala destinada às refeições não mais de vinte ou trinta minutos. A sua produtividade e da sua equipa decerto não têm equivalência em Portugal, foi uma das melhores aprendizagens que tive na minha vida profissional. Nunca soube se Kläus era doutor ou engenheiro mas aprendiz não era de certeza!

 

 

 

José Carlos Madeira

publicado por O Principe às 21:59
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